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Em homenagem às mães que perderam seus filhos no rompimento da barragem da Vale em Brumadinho: nunca esqueceremos

Entre orquídeas e tribunais, mães relatam como mantêm viva a memória das 272 vítimas e exigem justiça Por Joana Tavares e Carolina de Moura Quando 272 pessoas morrem de uma hora para outra, muitas outras pessoas são impactadas de formas […]

Entre orquídeas e tribunais, mães relatam como mantêm viva a memória das 272 vítimas e exigem justiça

Por Joana Tavares e Carolina de Moura

Quando 272 pessoas morrem de uma hora para outra, muitas outras pessoas são impactadas de formas profundas e definitivas, sem volta. Todas as vítimas fatais do rompimento da barragem da Vale, no Córrego do Feijão, tinham famílias, amigos, pessoas que as amavam, que tentam lidar com a dor de um luto tão intenso. As mortes não foram causadas por doenças, acidentes ou acaso: foram mortes violentas e evitáveis, fruto da negligência e da busca por mais lucro por parte das empresas e de seus responsáveis. Em 2026, eles finalmente começaram a ser julgados criminalmente por esses crimes.

Entre essa imensa comunidade de enlutados, uma categoria é universal: as mães. Aquelas mulheres que também perderam partes de si, que vivem essa dor absurda e vestem camisetas com os rostos de seus filhos e filhas, para que toda a sociedade não se esqueça. Quem morreu naquele 25 de janeiro foram seus filhos, pessoas que saíram pra trabalhar ou passear e simplesmente não voltaram. Foram a Kátia, o Thiago, a Camila, o Luiz, entre vários outros. Em mais esse Dia das Mães sem eles, essas mulheres precisarão lidar com essa ausência brutal, enquanto o crime segue impune e o modelo que o sustenta continua em expansão. Aqui elas contam um pouco sobre seus filhos e sobre a luta que enfrentam desde então.

“Coração de mãe bate onde o filho está” – Andresa Rodrigues, que perdeu seu único filho, Bruno.

Kátia floresce na orquídea

Maria Alice Mendes Paraguai, mãe de Kátia Gisele Mendes, tem um testemunho emocionante e uma trajetória de força impressionante:

 

“É muito difícil viver sem minha filha. Ser mãe de anjo não é fácil, mas, se fomos escolhidas por Deus, é porque somos fortes e guerreiras aos seus olhos. Ele nos fortalece todos os dias.”

 

Kátia encantava a todos com sua humildade e alegria contagiante. Transbordava amor e carinho e foi um ser abençoado. Viveu intensamente e deixou saudades por onde passou. Aos 39 anos, Kátia partiu e vive agora, em espírito de luz e amor, nas lembranças da família. Ela nunca será esquecida. Todos os dias, Alice pede a Nossa Senhora que lhe entregue uma rosa com sua bênção. Ela descreve o momento como especial, marcado pelo amor, pela dor, pela saudade e pela fé.

Alice conta muitas histórias sobre sua jornada após a perda da filha: o altar feito em casa, a presença frequente em atos de luta por justiça, a união da família em datas comemorativas e as ações de doação para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Dentre elas, está a história da orquídea Kátia, que é tão especial que parece um milagre.

Katia Mendes foi uma das vítimas do rompimento da barragem da Vale | Foto: acervo pessoal

 

Na casa de Alice e de seu marido, Antônio, há uma orquídea que Kátia amava. Ela sempre tirava foto com os afilhados entre os enormes cachos de flores. Em meio ao sofrimento e ao desespero após a tragédia, Alice buscava, de forma intuitiva, maneiras de se conectar com a filha. Foi quando teve a ideia de replantar a orquídea para oferecê-la à família e a todas as pessoas que a amavam e choravam por ela.

A planta nunca tinha dado muda, mas, de repente, começou a soltar brotos por todos os lados. Eram brotos saudáveis, e as mudas começaram a se multiplicar. Alice diz que perdeu as contas, mas acredita ter doado cerca de 100 orquídeas.

 

“Eu plantava a orquídea, os galhos novos se desenvolviam rapidamente, e eu fui doando. Em cada muda, pude sentir a presença de Kátia sorrindo e sua luz iluminando a escuridão que sua partida deixou em nossas vidas.”

 

Jacira e a saudade dos domingos com os filhos

 

Com atuação na linha de frente, Jacira Francisca Mateus Costa é membro da diretoria da AVABRUM, a associação que reúne familiares de vítimas fatais da tragédia-crime da Vale em Brumadinho. Sempre presente nos atos e atividades, ela se tornou uma referência na luta por justiça, memória e não repetição de crimes da mineração. Thiago Mateus Costa, o mais velho entre os seis filhos de Jacira, tinha uma deficiência no braço e na perna. Ele trabalhava na Vale e estava no Córrego do Feijão naquele fatídico 25 de janeiro de 2019.

Jacira conta que o rompimento da barragem mudou tudo em sua vida.

 

“A gente não tem mais sossego. Parece que a tragédia tomou conta de nossos dias; a todo momento, só se fala disso, só a dor permanece o tempo todo. Minha família e meus filhos nunca mais foram os mesmos. Eu lembro bem quando os meninos ficavam reunidos todos almoçavam juntos. O Thiago brincava, contava piada, ria; era ele que alegrava tudo. Nossa Deus, como sinto falta daqueles domingos.” – Jacira Francisca Mateus Costa, mãe de Thiago Mateus Costa

 

Thiago era um menino muito sorridente e alegre. Jacira diz que ele gostava de todo mundo, e todo mundo gostava dele:

 

“Nossa relação era maravilhosa. Às vezes eu precisava chamar a atenção dele, como toda mãe faz, mas ele não guardava raiva nem rancor. Era um menino puro, muito especial.”

 

No horário do almoço daquela sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, Jacira estava brincando com seu netinho na varanda quando seu filho mais novo ligou perguntando se ela sabia o que tinha acontecido na Vale. Imediatamente, Jacira ligou a televisão e começou a tentar falar com Thiago, mas ninguém atendia.

 

“Pensei que ele estivesse trabalhando na Mutuca. Fui até a casa de um vizinho para pedir o contato do chefe dele. Quando consegui falar com ele, ouvi que Thiago estava trabalhando no Córrego do Feijão naquele dia. Depois daquele momento, tudo ficou muito difícil. Só quem perdeu um filho sabe o tamanho desse sofrimento, ainda mais em uma tragédia tão cruel como esta, em que muitas famílias sequer puderam se despedir de seus filhos com um caixão aberto. Eu nunca tinha passado por uma experiência assim e não desejo isso para mãe nenhuma.”

 

Jacira Francisca Mateus Costa (à direita) segura uma camisa com a foto do filho, Thiago | Foto: Renata Regina/Instituto Cordilheira

 

Jacira acredita que a empresa tem responsabilidade pelo que aconteceu. Segundo ela, se os alertas tivessem sido ouvidos e houvesse mais cuidado após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, nada disso teria acontecido em Brumadinho. Para Jacira, a ganância falou mais alto.

 

“Hoje, o que nós, familiares, esperamos é justiça. Queremos que os culpados sejam responsabilizados. Isso não traz nossos filhos de volta, mas pode trazer algum alento às famílias e evitar que tragédias assim aconteçam novamente”, diz Jacira.

 

Em primeira pessoa: Helena Taliberti e a recusa ao silêncio

“No dia 25 de janeiro de 2019, eu perdi minha filha, meu filho, minha nora e meu neto. Minha filha Camila tinha 33 anos, meu filho Luiz 31, minha nora Fernanda 30, e meu neto, Lorenzo, estava na barriga, com cinco meses. Eu perdi meu chão, fiquei completamente sem rumo. Eu só tinha eles dois, e perdê-los juntos foi algo muito forte, muito brutal na minha vida, um trauma imenso.

“A vida acabou, né? Porque perdeu completamente o sentido. Minha família inteira se foi. Também morreu o pai deles e a madrasta. É um luto muito pesado, não é algo normal. Primeiro, perder os dois filhos juntos já deixa qualquer mãe completamente sem rumo. E depois saber que essa tragédia poderia ter sido evitada…

 

Os irmãos Luiz e Camila Taliberti | Foto: acervo pessoal

 

“Nunca imaginei que isso fosse acontecer com eles, porque eram turistas. Somos de São Paulo e não tínhamos essa dimensão do impacto da mineração. Eles estavam na pousada, a única pousada que foi levada pela lama. Luiz e Fernanda moravam na Austrália e vieram passar um mês de férias. Luiz era arquiteto, muito ligado às artes e ao meio ambiente, e queria conhecer Inhotim. Camila aproveitou o feriado em São Paulo (25 de janeiro é o aniversário da cidade) e, por ser uma sexta-feira, conseguiu um fim de semana prolongado. Fernanda chegou na manhã do dia 25. Eles estavam na pousada quando a lama chegou.

“Eles estavam em uma fase muito boa. Luiz estava eufórico com a chegada do bebê. Conversamos muito no período em que ele esteve aqui; eles chegaram no começo de janeiro. Tivemos um tempo gostoso para falar sobre o bebê e os projetos dele para o futuro. Camila estava muito bem, muito feliz com o sobrinho, já fazia planos de ir para a Austrália.

“O que eu posso dizer deles, resumidamente, é isso, porque é uma vida inteira para contar. Camila e Luiz eram muito engajados. Camila era advogada, especialista em direito digital, e tinha uma forte atuação ligada ao meio ambiente e aos direitos das mulheres. Foi então que nós decidimos — digo “nós” porque não foi uma ideia minha, mas dos amigos do Luiz e da Camila — criar uma entidade que pudesse falar sobre o que estávamos vivendo, sobre o que aconteceu e sobre o que continua acontecendo. Porque a tragédia não começou e terminou em 25 de janeiro de 2019; ela continua até hoje, com todos os seus impactos sobre as famílias das 272 vítimas, o meio ambiente e as cidades atingidas.

“Criamos o Instituto Camila e Luiz Taliberti, que reúne associados e voluntários muito presentes, que também encontraram ali uma forma de elaborar o luto. O instituto tem como principal objetivo a defesa dos direitos humanos, com foco no empoderamento de grupos vulneráveis, especialmente mulheres, e na proteção do meio ambiente.

“Lutamos para que esses danos sejam mitigados e para que a mineração se torne mais responsável, e não predatória como ainda é hoje. Precisamos olhar para o futuro com consciência, entendendo que essa luta não é só nossa, mas de toda a sociedade — uma sociedade que deseja um futuro em que as próximas gerações tenham condições dignas de vida, sem serem marcadas por catástrofes.

“Meus filhos, meu ex-marido, sua esposa, minha nora, todos, as 272 pessoas, foram mártires da mineração. Eles não foram vítimas apenas: foram pessoas que saíram para trabalhar ou viver suas vidas e não voltaram para casa. Meus filhos, que eram turistas, morreram soterrados. Como assim? Precisamos falar sobre isso. Precisamos falar todos os dias, em todas as oportunidades que tivermos.”

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